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Exclusivo: conversa entre comissária e mecânico réu por queda da Voepass revela preocupação com aviões 21 meses antes do acidente

Perícia em celular da comissária que morreu na queda da Voepass localiza mensagem de mecânico da empresa, um ano e nove meses antes, em que reforça a tese d...

Exclusivo: conversa entre comissária e mecânico réu por queda da Voepass revela preocupação com aviões 21 meses antes do acidente
Exclusivo: conversa entre comissária e mecânico réu por queda da Voepass revela preocupação com aviões 21 meses antes do acidente (Foto: Reprodução)

Perícia em celular da comissária que morreu na queda da Voepass localiza mensagem de mecânico da empresa, um ano e nove meses antes, em que reforça a tese do MPF sobre as falhas constantes de manutenções da empresa: "Esses aviões não cai, pq Deus gosta muito da gente", diz o trecho Reprodução Vinte e um meses antes do avião da Voepass cair e matar 62 pessoas em Vinhedo (SP), um dos 12 réus do processo, o mecânico Alex de Souza Leandro, disse em mensagem enviada ao celular da comissária de bordo Rubia Silva de Lima, uma das tripulantes mortas na tragédia aérea, que "esses aviões não cai, pq Deus gosta muito da gente (sic)". O trecho da conversa de 22 de novembro de 2022 extraído pela perícia no celular da comissária, recuperado no local da tragédia, endossa a tese do Ministério Público Federal (MPF) de que a queda do ATR 72-500 em 9 de agosto de 2024 foi "desfecho previsível de um processo continuado de omissões deliberadas". O g1 teve acesso aos documentos nesta quarta-feira (4), após a Justiça levantar o sigilo do processo nesta semana. O Núlceo de Inteligiência Policial destaca no relatório enviado à Polícia Federal que, ao analisar o conteúdo do celular da comissária, "constatou-se que algumas conversas de Rúbia com colegas de profissão corroboram a tese de descaso da empresa Passaredo com a manutenção das aeronaves e denotam que o conhecimento dessa cultura organizacional se dava em praticamente todos os níveis". Ao todo, 12 pessoas tornaram-se réus e vão responder pelos crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo e sinistro em transporte aéreo, acusados tanto pela queda quanto pelo risco ao qual passageiros e tripulantes foram submetidos nos três voos realizados imediatamente antes do acidente pela mesma aeronave. Em seus depoimentos durante a investigação, Alex de Souza Leandro negou ter praticado ou aceito procedimentos irregulares de manutenção e afirmou que, embora reconheça que havia pressão para agilizar voos e liberar aeronaves, não teria liberado ou presenciado a liberação de aviões sem condições de aeronavegabilidade. O g1 procurou a defesa de Alex de Souza Leandro para comentar a conversa identificada na perícia. Em nota, o escritório que representa o ex-mecânico disse que está na fase de apresentação de defesa e que irá se pronunciar nos autos. Justiça torna réus 12 denunciados por queda de avião da Voepass que matou 62 pessoas Perícia no celular Nas mensagens extraídas do celular da comissária, os peritos identifcaram conversas em aplicativos de mensagens com colegas de trabalho que apontam problemas técnicos recorrentes e questionamentos sobre a manutenção das aeronaves da Voepass. Em junho de 2024, uma colega relata para Rúbia que um voo operou sob calor insuportável por falha no ar-condicionado, e destacou que o comandante tentou não realizar a viagem, mas a empresa teria forçado a tripulação a seguir. "(...) Avião quente, não tava nada fresco, nada, tava quente. Eu fiquei chocada assim, sabe? Não, nada me choca mais, só que como tem coragem de colocar pessoas no avião", diz a tripulante para Rúbia. O problema com o ar-condicionado também motivou outra conversa, de março de 2022, em que Rúbia comenta um episódio em que passageiros tentaram invadir a cabine por conta do calor. Em outras conversas, um colega de Rúbia expressa preocupação e indignação com o cenário. "(...) Mais de dez dias aqui parado no hotel. Você tem noção? Olha, tá assim. Pela hora da morte. A empresa tá um barata voa (sic). Se eu te contar, você passa nervoso junto comigo", diz o trecho. Em outro momento, ele reforça: "(...) não dão manutenção nesses aviões, ficam brincando com os passageiros". As conversas sobre panes nas aeronaves eram recorrentes. Foram localizadas mensagens com esse teor em novembro de 2022, julho de 2023 e julho de 2024. Entre os trechos, relatos de aeronave "dando trabalho o dia inteiro" e "toda bixada cheia de pane". Em nota enviada quando a Justiça aceitou a denúncia, a Voepass disse que o processo seguirá os trâmites previstos em lei e que "a companhia seguirá colaborando com o Poder Judiciário e com as demais autoridades competentes, fornecendo os documentos e as informações que forem solicitadas ao longo do processo" - clique aqui e veja a nota na íntegra. Acidente Voepass: quem são os 12 réus denunciados pelo desastre aéreo que matou 62 pessoas em Vinhedo Relembre acidente com avião da Voepass que deixou 62 mortos em Vinhedo Cenipa aponta 'cultura de normalização de desvios' na Voepass VÍDEO: simulação mostra voo da Voepass da decolagem à queda Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Os denunciados Entre os réus estão integrantes da alta administração da Voepass que ocupavam cargos de direção e chefia na época do acidente. Dois funcionários que, segundo o MPF, tiveram participação direta nos fatos que levaram à queda também respondem pelos crimes. Veja a lista abaixo: Marcos Hiroyuki Sato (despachante de voo, responsável pelo voo 2283) Alex de Souza Leandro (mecânico) William Schmidt Agatz (gerente do Centro de Controle Operacional) Juliano Flores Pacheco (gerente do Centro de Controle de Manutenção) Raphael Limongi de Figueiredo (chefe do Centro de Controle Operacional) Marcel Sarquis Moura (diretor de Operações) Tiago Passucci Morani (inspetor-chefe e gerente de engenharia) Carlos Alberto Costa (diretor de manutenção) Eric Consoli (diretor técnico) Rafael Gimenez Rodrigues (piloto-chefe) David da Costa Faria Neto (diretor de Segurança Operacional) José Luiz Felício Filho (dono da Voepass) Outras quatro pessoas indiciadas pela Polícia Federal firmaram acordos de não persecução penal e, por isso, não foram incluídas na denúncia. Arte mostra quem são os 12 réus após queda do voo 2283 em Vinhedo (SP). Arte/g1 O que disse a Voepass "A VOEPASS entende que, com o recebimento da denúncia pela Justiça Federal, o processo seguirá os trâmites previstos em lei, assegurando às partes envolvidas. A companhia seguirá colaborando com o Poder Judiciário e com as demais autoridades competentes, fornecendo os documentos e as informações que forem solicitadas ao longo do processo. Ao longo de mais de três décadas de atuação na aviação brasileira, a VOEPASS manteve a segurança operacional como princípio fundamental, com procedimentos de manutenção, operação e treinamento orientados pela regulamentação aeronáutica e por suas diretrizes internas de segurança e conformidade. A defesa de José Luiz Felício Filho informa que tomou conhecimento do recebimento, pela Justiça Federal, da denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal e que se manifestará nos autos, no momento adequado, exercendo plenamente as garantias constitucionais do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal. À época do acidente com o voo 2283, Felício integrava o Conselho da VOEPASS e estava afastado da gestão direta e cotidiana da operação, tendo retomado a gestão executiva após o acidente. Felício tem colaborado com as autoridades desde o início das apurações e seguirá à disposição da Justiça para contribuir com o completo esclarecimento dos fatos. O executivo mantém sua confiança no devido processo legal e reitera seu respeito às autoridades e sua solidariedade aos familiares das vítimas do voo 2283." Infográfico - Como era o avião que caiu em Vinhedo Arte g1 Globocop mostra local da queda de avião em área de condomínio em Vinhedo (SP) Reprodução/Tv Globo VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região